Discursos

Discurso da Manuela d’Ávila ao conceder a medalha do Mérito Farroupilha ao Jean Wyllys

Queridas convidadas, queridos convidados, amigos parlamentares aqui presentes, meu querido amigo e homenageado Jean Wyllys. O que é o mérito farroupilha? É um sentimento que nós gaúchas e gaúchos crescemos aprendendo a cultivar em nosso cotidiano. Seja quando tomamos um mate ou quando cantamos alto o hino do Rio Grande, dizendo que nossas façanhas servirão …

Queridas convidadas, queridos convidados, amigos parlamentares aqui presentes, meu querido amigo e homenageado Jean Wyllys.

O que é o mérito farroupilha? É um sentimento que nós gaúchas e gaúchos crescemos aprendendo a cultivar em nosso cotidiano. Seja quando tomamos um mate ou quando cantamos alto o hino do Rio Grande, dizendo que nossas façanhas servirão de modelo para toda terra, nós gaúchos somos criados sem saber muito os porquês de termos tanto orgulho em nos autoproclamarmos e dividirmos o estado entre chimangos ou maragatos.

Mas o fato é que os farroupilhas representam, em nosso imaginário, o sonho do Rio Grande por liberdade, igualdade e humanidade. E a falsa polêmica em torno de te ofertar essa medalha, querido Jean, tem muita relação com isso. Por quê? Porque te ofertar a medalha fez o Rio Grande pensar sobre o quão amplo – ou não – é esse grito por liberdade, igualdade e humanidade.

Ele é um grito que serve apenas para os homens que brigam por charque ou serve também às mulheres que trabalham e batalham por direitos iguais?

Ele é um grito que acolhe apenas heterossexuais ou nele cabem todos os seres livres que lutam por seu direito de serem o que quiserem ser?

Ele é um grito que só aceita uma religião ou acolhe aos lanceiros negros e sua religiosidade?

É um grito que denuncia a tortura ou que cala amedrontado diante de seus defensores?

É um grito que coloca a todos os humanos em pé de igualdade ou perpetua a ideia de que uns são mais humanos que os outros?

Para mim, a interiorização dos valores farroupilhas se dá a partir de um grito forte por justiça. E a justiça só é justa quando os humanos são todos iguais em direitos. Humanos com direitos. Direitos humanos.

E é por isso, meu caro amigo, que tu estás aqui nesta noite de tantas – falsas, eu repito – polêmicas.

Perguntam-me e o que ele fez pelo Rio Grande? O Rio Grande faz parte do Brasil e não há Brasil sem Rio Grande, como disse Jaime Caetano Braun. E és deputado federal desse país. Fazes leis para os gaúchos, paranaenses e cariocas. Mas mais do que isso, ao Rio Grande de igualdade, justiça e liberdade, inspiras.
Quando lutas pelo reconhecimento dos direitos constitucionais – como o casamento – para todos os brasileiros e brasileiras, inclusive os gaúchos.

Quando dizes que uma mulher gestante ou com seu bebê recém-nascido deve ter direitos em sala de aula, proteges a todas nós mães estudantes, como a mim mesma, mãe estudante de pós-graduação gaúcha.

Quando dizes que é preciso falar sobre HIV, conscientizar nossos jovens, falas ao Brasil do Rio Grande que tem dos maiores índices de jovens vivendo com AIDS do país.

Quando gritas diante de quem defende a tortura, representas o Rio Grande que resistiu à ditadura desde a Legalidade.

Quando não te calas diante de nenhuma morte por homofobia, representas a mãe, o amigo de cada transexual assassinada, de cada gay que se suicida pela depressão causada bullying.

E, aqui, no Rio Grande, também conhecemos essa realidade.

Jean, quando te lembras de debater a prostituição, abres a ferida do silêncio sobre a vida dessas pessoas, em sua maioria mulheres.

Talvez alguns sonhem com um Rio Grande que não veja liberdade, igualdade e humanidade em tantas mulheres e homens que representas. Eu sou da turma que não acredita em meia liberdade, meia igualdade e pouca humanidade. Quero isso para todas. Quero isso para todos. Quero por inteiro. Nada menos.

Por isso, recebes essa medalha. Porque tu defendes a muitos dos gaúchos e gaúchas. E no fundo, a grande maioria, dos que questionaram o fato de receberes a medalha, esconde a homofobia e a inconformidade com tua presença no espaço público.

Quanto a eles, terão um lugar pequeno na história. O lugar do preconceito, da intolerância, do ódio. Eles, Jean, como diria Mário Quintana, nosso poeta, ah, Jean, eles passarão, tu passarinho.

Sabe por que, Jean? Porque já nos ensinou Jaime Caetano Braun “não há tirano que mande na alma de um farroupilha”. Tua alma já era nossa antes mesmo de carregares essa medalha!